terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Caso...

Não sei me entregar pela metade
Nem me encaixar apenas por momentos
Não sei ficar conversando com alguém até tarde
e ter outra me esperando ao mesmo tempo

Observar alguém por fora
Achar uma atração que me agrade
Soa como obrigação que implora
por uma plateia que a aplaude

Não consigo enxergar sentido
num abraço demorado
em pessoas que estão contigo
somente para aumentar seus dados

"Quantas pessoas você já pegou?
Isso é  um pré requisito
É preciso experimentar bastante
antes de parar com alguém bonito"

Pasme! Deve ser bonito

Pessoas não são só números
e colecioná-las não me parece normal
Serei eu um erro de código
que não consegue viver de modo tão trivial?

Ficar com uma pessoa só agora é tão antiquado
que fidelidade se tornou troféu nas mãos de um apaixonado
Não é mais implícito o pertencer
agora é preciso esclarecer

"Casa comigo?"
"Caso... você... não tenha entendido,
estamos vivendo só mais um caso..."
Pobre ser humano... Quem mandou nascer com o código errado?





E aí, gostou? comenta!!
Beijos Doces 💜


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Oliver Stan

Enquanto Oliver descia as escadas apressadamente, sua mãe enxugava os pratos que estavam na pia. A jovem corria em direção ao ponto de ônibus, do outro lado de sua calçada, onde esperaria por uma hora caso não pegasse o próximo ônibus. Sua mãe olhou pela janela do segundo andar de sua casa, onde ficava a cozinha mal planejada, e ria do jeito desengonçado da filha. Dona Almir olhou a mesa e viu que a filha esquecera seu telefone - para variar - e começou a gritar:

- Oliver, você deixou o celular aqui de novo!  - Como Oliver odiava os gritos de sua mãe... Ela sempre fingia não escutá-los.  - Ei! - Ela insistiu enquanto observava a filha atravessar a rua. - Você vai dobrar hoje de novo? - Oliver levantou as mãos e fez sinal de positivo ao mesmo tempo que corria pela frente do ônibus fazendo-o parar.

- Não foi dessa vez, Marcelo. - Ela falava ao motorista forçando uma intimidade que não tinham. Ele riu quando ela passou pela roleta e não podia mais ver seu rosto bolachudo.

O ônibus seguiu o trajeto de todos os dias, chegando finalmente ao destino de Oliver: uma rua repleta de bares. Já era meio dia e estavam todos lotados. Todas as mesas, feitas de madeira com estilo mais rústico até às de plástico com estampas de cervejas famosas, eram envolvidas por, no mínimo, quatro pessoas que riam sem motivo aparente e aquilo enchia Oliver de ânimo. Ela amava ver os sorrisos de desconhecidos um pouco alcoolizados.

Oliver subiu aquela rua estreita e bastante íngreme, até chegar no seu local de trabalho, o Bar do Seu Jorge. Na verdade, o bar se chama Burguesinha, mas "Seu Jorge" demonstra mais seriedade, ela acha, apesar de o dono do bar se chamar Emanuel. Felizmente, Emanuel não liga mais por errarem seu nome.

- Atrasada...

- Desculpa, Seu Jorge. Não vai se repetir. - Ela colocou o avental preto.

- Você disse isso ontem, Oliver... - Ele fez um sinal para que ela se aproximasse. - Olha, você devia decidir o que quer...

- Me desculpa mesmo. Eu não vou mais me atrasar. Por favor, preciso desse emprego.

- Precisa mesmo? - Os dois sabiam que aquilo era mentira, mas ele não disse mais nada.

Ela começou a servir as pessoas que estavam no bar. Sexta-feira era um dia muito movimentado, talvez por isso Seu Jorge estivesse com menos paciência que de costume. Convenhamos, aquele homem era um posso de longanimidade, ninguém teria a mesma paciência que ele tem com Oliver. Atrasos constantes e mais faltas do que deveria nos últimos dois anos. Ela não era a melhor garçonete que ele já teve, apesar de ser uma ótima amiga.

O dia passou como todos os outros. Oliver serviu os clientes, limpou as bancadas e mesas, foi à cozinha inúmeras vezes pegar os novos pedidos, ouviu cantadas inapropriadas e histórias tristes de bêbados, expulsou uns caras do banheiro de vez em quando... Tudo isso até dar 8 horas da noite, seu horário de saída.

- Já sabe, Seu Jorge. Se ela ligar, eu cobri o Jonatas. - Seu Jorge balançou a cabeça para os lados em tom de reprovação.

Oliver tirou seu avental, pegou uma sacola que estava embaixo de um dos balcões e foi em direção ao banheiro trocar de roupa. Colocou seu terno azul marinho barato e seu óculos escuros falsificado e voltou a subir a rua estreita de bares. Em sua contramão desciam alguns jovens de uma faculdade próxima dali, uns 6 advogados comemorando uma despedida de solteiro, e alguns garis que varriam a rua de cima para baixo. À medida que as pessoas se despediam de seus ambientes de trabalho, Oliver Stan se via cada vez mais próxima de seu segundo e emprego.


sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Coisas estranhas sobre mim

Decidi enumerar coisas que acho estranhas sobre mim. Sim, são 1h da manhã e eu decidi fazer isso. Não sei quantos números serão, mas acredito que não serão poucos.


1. Toda vez que eu entro descalça no banheiro sinto algo rastejando no meu pé enquanto escovo os dentes, mas nunca tem nada. Eu acredito que é meu subconsciente me alertando que um bicho peçonhento pode sair do ralo e me picar.

2. Quando estou em passarelas, eu costumo andar no meio e evito as bordas. Um, eu tenho um pequeno medo de altura, dois, eu sempre tenho a sensação de que vão me empurrar lá de cima.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

NEOQUEAV

"Meus avós já estavam casados há mais de cinqüenta anos e continuavam jogando um jogo que haviam iniciado quando começaram a namorar.
A regra do jogo era que um tinha que escrever a palavra "Neoqueav" num lugar inesperado para o outro encontrar e assim quem a encontrasse deveria escrevê-la em outro lugar e assim sucessivamente.
Eles escreviam "Neoqueav" com os dedos no açúcar dentro do açucareiro ou no pote de farinha para que o próximo que fosse cozinhar a achasse.
Escreviam na janela embaçada pelo sereno que dava para o pátio onde minha avó nos dava pudim que ela fazia com tanto carinho. "Neoqueav" era escrita no vapor deixado no espelho depois de um banho quente, onde a palavra iria reaparecer depois do próximo banho.
Uma vez, minha avó até desenrolou um rolo inteiro de papel higiênico para deixar "Neoqueav" na última folha e enrolou tudo de novo.
 Não havia limites para onde "Neoqueav" pudesse surgir.
Pedacinhos de papel com "Neoqueav" rabiscado apareciam grudados no volante do carro que eles dividiam. Os bilhetes eram enfiados dentro dos sapatos e deixados debaixo dos travesseiros.
Esta misteriosa palavra tanto fazia parte da casa de meus avós quanto da mobília. Levou bastante tempo para eu passar a entender e gostar completamente deste jogo que eles jogavam.
Meu ceticismo nunca me deixou acreditar em um único e verdadeiro amor, que possa ser realmente puro e duradouro.
Porém, eu nunca duvidei do amor entre meus avós. Este amor era profundo. Era mais do que um jogo de diversão, era um modo de vida. Seu relacionamento era baseado em devoção e uma afeição apaixonada, igual as quais nem todo mundo tem a sorte de experimentar.
O vovô e a vovó ficavam de mãos dadas sempre que podiam.
Roubavam beijos um do outro sempre que se batiam um contra outro naquela cozinha tão pequena.
Minha avó cochichava para mim dizendo o quanto meu avô era bonito. Ela se gabava de dizer que sabia como pegar os namorados mais bonitos.
Antes de cada refeição eles se reverenciavam e davam graças a Deus por sermos uma família maravilhosa e para continuarmos sempre unidos.
Mas uma nuvem escura surgiu na vida de meus avós: minha avó tinha câncer de mama.
A doença tinha primeiro aparecido dez anos antes. Como sempre, vovô estava com ela a cada momento. Ele a confortava no quarto amarelo deles, que ele havia pintado dessa cor para que ela ficasse sempre rodeada da luz do sol, mesmo quando ela não tivesse forças para sair.
O câncer agora estava de novo atacando seu corpo. Com a ajuda de uma bengala e a mão firme do meu avô, eles iam à igreja toda manhã. E minha avó foi ficando cada vez mais fraca, até que, finalmente, ela não mais podia sair de casa.
Por algum tempo, meu avô resolveu ir à igreja sozinho, rezando a Deus para zelar por sua esposa. Então, o que todos nós temíamos aconteceu...
Vovó partiu...
"Neoqueav" foi gravada em amarelo nas fitas cor-de-rosa dos buquês de flores do funeral da vovó.
Quando os amigos começaram a ir embora, minhas tias, tios, primos e outras pessoas da família se juntaram e ficaram ao redor da vovó pela última vez.
Vovô ficou bem junto do caixão da vovó e, num suspiro bem profundo, começou a cantar para ela.
Através de suas lágrimas e pesar, a música surgiu como uma canção de ninar que vinha bem de dentro de seu ser.
 Me sentindo muito triste, nunca vou me esquecer daquele momento.
Porque eu sabia que mesmo sem ainda poder entender completamente a profundeza daquele amor, eu tinha tido o privilégio de testemunhar a beleza sem igual que aquilo representava.

Aposto que a esta altura você deve estar se perguntando:

"Mas o que Neoqueav significa?".

Nunca Esqueça O Quanto Eu Amo Você ❤"




(Texto do Facebook que merecia ser publicado aqui.)

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Imprudente

É um sino que tine sem parar
Tocado incessantemente por um adolescente, que tão imprudente,
Não se põe no nosso lugar

Nitidamente gerando incômodo em volta
Pessoas trancando suas portas
Tentando impedir o som de entrar
Mas a missa fora de hora
Parece que a cada tine se aflora
Preenchendo de uma vez só nossa entrada auricular

O padre quase que aposentado
Corre em direção ao menino mal educado
Mas a coluna não o deixa alcançar
O menino com toda sua velocidade
Começa a percorrer pela cidade
Para que ninguém possa o encontrar

Apesar do silêncio reinstalado
O padre parece zangado
Queria mandá-lo um terço rezar
A mãe do menino disse ao padre
“Deixe comigo. Ele que me aguarde!
Vou bater até o galo cantar"

Pobre menino! Tão imprudente!
Só queria chamar a atenção da gente
Para um anúncio conseguir entregar
“Hoje passei no teste de matemática
Mas parece que não foi uma boa prática  
Através do sino comemorar…”

Parece que a alegria do menino era o suficiente
Pra fazer toda a cidade ranger os dentes
De tanta raiva ao ouvi-lo tocar:
Blim-blom-blim-blom-blim-blom
Ou algo assim no mesmo tom
Não importa, o menino de série passará!



quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Seria indelicadeza?

Seria indelicado mandá-la embora? Veja bem, ela está vindo sem me avisar com antecedência e eu sou bastante sistemática quanto a isso. Será que se eu pedisse carinhosamente ela não viria?
Isso é uma droga! Eu deixei claro da última vez que ela veio: "Não volte mais, você só complicou minha vida!". Tá, não foi com essas palavras, mas ficou subentendido.
Seria eu egoísta por escolher permanecer como estava? Calmaria e constância, me dou bem com isso. Não sou o tipo de pessoa que gosta de receber visitas, digo, a visita dela. Eu não quero ela aqui mexendo em tudo, bagunçando aqui dentro, xeretando onde não foi chamada. Ela é intrusa demais para mim.

Lembro-me como se fosse ontem. Ela apareceu um dia sem dizer quem era, disse que não tinha lugar para ficar e eu, de bom grado, aceitei que ficasse por alguns dias, mesmo sem conhecê-la.
No começo, parecia que era o jeito dela, acomodada e irritante, mas depois percebi que aquilo só era a ponta do iceberg. Começou a invadir meu espaço, tomar conta de tudo, como se fosse dela e eu deixei sem nem me dar conta. Ela era/é muito persuasiva, diria autoritária de um jeito gentil até.

No final das contas, ela queria tudo para si. Já havia arquitetado desde o início, iria se passar por outra para ganhar tempo enquanto tomava posse de tudo que eu tinha. Ela foi se achegando, pegando intimidade, a ponto de eu me sentir mal de colocá-la para fora. Mas chegou um momento que tive que fazer isso, ainda mais depois de descobrir que ela era uma farsa. Fez parecer que era alguém mas era outra pessoa. Mentirosa.

No dia que nós discutimos foi terrível, choros e lamentações. Apesar de tudo, eu já havia me acostumado com a sua presença diária e ela não queria ir, simplesmente. Eu disse que seria melhor assim, que nunca nos daríamos bem e então ela saiu, impetuosa e muito orgulhosa. Alguns dias depois recebi algumas mensagens, pedindo para voltar, mas pedi que não mandasse mais mensagens e assim fez.

Até anteontem.

Ela me mandou uma mensagem dizendo que já estava a caminho e...
Só um momento.
Ela chegou.

- Voltei! Sentiu saudades de mim!? Nossa, eu tenho tanta coisa pra te contar!- Ela entrou e jogou as malas no chão. - Visitei tanta gente esses dias que você não faz ideia... Mas é tão bom voltar aqui, me sinto tão em casa... - Ai, meu Deus. Ela não para de falar. - Como anda as coisas em casa? A família? Os amigos?
- Oi.
- O namoro? A religião? Sua vida como cidadã? Seus ideais e conceitos?
- Por que você fala tão rápido e sobre tantas coisas ao mesmo tempo?
- Querida, nós não tempo a perder... Mas, enfim, quero que me conte tudo. - Ela deitou no sofá com os pés em cima da mesa de centro. Como eu odeio que ela faça isso.
- Bom, você sabe, tudo na mesma...
- Nossa! Você não muda mesmo, a mesma monótona de sempre. Temos que dar um jeito nisso já! Nessa casa também, tá tudo tão sem graça! - Ela olhou em volta.
- Eu gosto assim.
- Você tá muito por fora! Precisamos repaginar tudo aqui! - Por que ela só fala gritando? Está me dando dor de cabeça...
- Tudo bem, depois nós vemos isso. - Droga.
- É assim que eu gosto! - Me abraçou tão forte que doeu.
- Ah... Quanto... tempo você pretende ficar dessa vez? É que eu tenho umas coisas pra resolver e...
- Ah, querida, não se preocupe comigo, finja que não estou aqui! - Mais fácil eu passar um camelo por uma agulha do que fingir que ela não está lá. Ela só fala gritando e não para de perguntar por um segundo sequer.
- Tudo bem então... - Meu Deus, de novo não.
Enquanto ela falava sem parar, comecei a escrever no computador, fingindo que estava trabalhando. Pensando em uma forma de mandá-la embora de novo. 
- Você vai acabar quando aí?! Tô entediada já! - Ela já tinha mudado todos os móveis de posição da sala.
- Estou quase... - Continuei escrevendo. Ela apareceu no meu quarto e começou a falar e mexer em tudo.
- Nossa! Aqui tá tão sujo! Você devia limpar mais seu quarto! O meu não é assim, eu... - Eu olhava para ela mas não conseguia ouvir nada além de blá-blá-blá. - sempre cuidei muito das minhas coisas. Você anda muito acomodada! Precisa sair e conhecer mais gente, quem sabe melhora um pouco esse seu jeito! - Não vou aguentar isso de novo. - Tão chatinha! Parece uma velha. - Ela riu. - Devia melhorar esse seu senso de hu...
- Chega! Vai embora da minha casa agora! Sai daqui! - A empurrei.
- O quê!? Quem você pensa que é pra fazer isso comigo, sua inútil! Você é uma idiota, bem que me falaram!
- Vai emboraaaaaaaaaaaaaaaaaaa! - Eu já tinha a empurrado até a sala.
- Quem você pensa que é?! Você é um lixo! - Ela queria me fazer sentir mal por eu ser boa comigo! Como assim!?
- Se sou tão lixo por que vem me visitar!? - Peguei suas malas e joguei do lado de fora. - Vai embora!
- Bem que falam que você é horrível! Desse jeito vai acabar sozinha! - Eu continuei empurrando. - Por isso que ninguém te suporta e te quer por perto! Sua ridícula!
- Dane-se! Vai para o raio que o parta, Ansiedade! - Fechei a porta.

Nunca pensei que conseguiria respirar melhor com a porta fechada, mas enfim tenho ar novamente.




quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Entulho

Um entulho de palavras se formaram
O tempo foi o encarregado de amontoá-las 
De modo que agora ficou tudo tão escondido
Tudo tão embutido
Palavra dentro de palavra
que não se enxerga quase nada

Um "a" aqui, outro ali
Uma frase mal acabada
Palavras que não foram ditas
Palavras que mereciam ser escritas
E agora são sucata

O restante de dias fatídicos
que deveriam trazer consigo
a inspiração que me faltava
Parece que se tornaram um peso cansativo
que de tanto pesar,
derrubava

Derrubou-se cada vogal e consoante
que deveria formar o restante
dessa rima bem intencionada
Entulhou-se cada sentido
das palavras que haviam se perdido
para essa obra não terminada

Aguardo neste abrigo
o dia de reconstruir cada frase quebrada
que o tempo, meu velho inimigo,
fez questão de encobrir com mais de uma camada
Camadas de superficialidades mais rígidas que pedra
Ironia desse tempo
Esperar esse dia é o que me resta.