sexta-feira, 28 de julho de 2017

Evidências - Parte 2

Parte 1

Não consigo me lembrar muito bem o que houve depois que vi a pulseira. Não conseguia pensar em nada além de Julia. Eu estava em uma espécie de nostalgia horrível onde eu revivia tudo que aconteceu com a minha mãe. Estava acontecendo tudo de novo.

Humberto me levou até embaixo a fim de recebermos os policiais. Eram muitos. Trouxeram cães farejadores e lanternas. Eu observava aquilo e agradecia a Deus por ter me casado com o advogado mais influente da cidade. Isso nos dá alguns privilégios.

Depois de algum tempo, enquanto os policiais vasculhavam os derredores da casa, o delegado começou a nos fazer perguntas.

- Julia estava pensando em fugir de casa? Talvez com algum namorado?

- Em absoluto! - Eu disse. - Ela nunca sairia de casa sem nem ao menos nos avisar. Ela não é assim...

- Eu entendo, senhora Rabello. Só estou fazendo perguntas padrões para eliminar hipóteses. Alguns jovens gostam de dar susto à família. - Ele olhou para Humberto. - Quem estava em casa enquanto vocês não estavam?

- Nosso filho Daniel e sua babá, Amélia. Os outros empregados estavam de folga.

- Podem chamar os dois?

- Sim. - Humberto subiu e me deixou com o delegado e outra policial que estava com ele.

- A senhora sempre se deu bem com sua irmã?

- Sim. Somos muito unidas. Ela me considera como uma mãe, porque nossa mãe faleceu quando ela era bem nova e eu quem cuidei dela desde então.

- Entendo. Quando chegou em casa notou algo estranho?

- Sim. Meu filho estava dormindo no chão com o cachorro e as luzes estavam apagadas. A casa estava silenciosa e não é costume de Julia dormir cedo. Subi as escadas, ela não estava no quarto. Senti um cheiro de cloro forte lá, eu sabia que tinha algo errado a partir daí.

- Por que não nos chamaram logo?

- Humberto disse que era pra termos certeza que ela não tinha saído com alguma amiga, então ligamos para todas, mas nenhuma tinha conversado com ela sobre sair. Ele procurou pela casa de novo e eu voltei ao quarto. Eu notei que faltava um tapete beje que fica ao lado da cama e encontrei a pulseira de Julia ensanguentada próxima à cama.

- A senhora encostou na pulseira?

- Não. Nem Humberto. Ele disse que poderiam ter digitais nela.

- Ele fez bem. A perícia já está analisando o local. - Quando ele acabou de falar, Humberto chegou com Amélia e Daniel, que estava em seu colo. Eu quis pegá-lo mas ele quis ficar com ela.

- Pode falar seu nome completo por favor? - O Delegado começou.

- Amélia Cristina Queiroz.

- Ouviu ou viu alguma coisa estranha essa noite?

- Sim, ouvi um barulho de carro por volta das 22 horas. Achei que fossem os patrões, mas eles chegaram às 23:30 horas. - Olhei para Amélia. Ela havia mentido, mas será que para mim ou para o delegado?

- Mais alguma coisa estranha?

- Não, senhor.

- Tem certeza? Qualquer mínimo detalhe pode ser importante.

- Bom, eu ouvi a senhorita Julia ao telefone um pouco depois que os patrões saíram.

- O que ela disse?

- "Queria te ver hoje" ou algo assim... Não lembo direito. - Eu franzi o cenho.

- Sabe se ela tinha algum namorado?

- Acho que sim. - Eu a olhei boquiaberta.

- Eles poderiam estar juntos agora? - Ela olhou por um segundo para Humberto e abaixou a cabeça.

- Si-sim.

- Como você pode ter certeza disso, Amélia? Há pouco tempo atrás você tinha dito que não tinha visto nada e agora está insinuando que minha irmã fugiu com algum homem!? - Eu gritei com ela. Ela arregalou os olhos e abaixou a cabeça. Como ela teve coragem de dizer aquilo?

- Aila, ela só está falando o que viu... Ela não deve ter falado antes para não te decepcionar. - Eu olhei para Humberto sem acreditar no que tinha acabado de dizer.

- Vamos ter calma, senhora Rabello. - O delegado nos interrompeu. - Esse não é o momento para discussões. Todos os detalhes são importantes quando uma pessoa desaparece. - Ele respirou profundamente. - Veja bem, alguns jovens fogem de casa, não é culpa da família a maioria das vezes...

- Ela não saiu porque quis! Vocês esqueceram da pulseira que eu encontrei? Ela estava com sangue!

- Nós não esquecemos. Só estamos tentando entender o que aconteceu essa noite. Os detalhes da senhorita Queiroz são cruciais para isso. - O delegado disse olhando para Amélia. - Depois continuaremos com mais perguntas caso sejam necessárias. Por agora vamos fazer perguntas ao menino, mas só os pais ficam dessa vez. - Ela acenou positivamente com a cabeça e entregou Daniel ao Humberto. Ela não olhou em nenhum momento para mim.

- Oi, meninão! - Ele disse entusiasmado. Parecia gostar de crianças. - Você pode dizer pra o tio se viu alguma coisa estranha quando seus pais saíram?

Daniel olhou para mim e para Humberto, abaixou a cabeça e a apoiou no ombro dele.

- Vamos, querido. A Titia Julia não tá em casa e queremos saber se você viu ela sair. -  Ele não disse nada. - Amor, fala com a mamãe... - Ele abraçou o Humberto.

- Ele não quer falar, Aila. - Humberto disse ríspido. - Melhor eu levá-lo pra cima e depois nós tentamos. Eu não acho que ele vai ajudar muito.

- Não. Ele vai ficar aqui conosco. - Eu não queria mais ele próximo à Amélia, não depois dela mentir descaradamente.

- Aila, aqui embaixo está cheio de policiais, pessoas estranhas. Não é atoa que ele não está se sentindo à vontade. Melhor nós o levarmos para o seu quarto. Ele deve está cansado. - Ele esperou uma reposta minha, mas eu não dei. - Tudo bem. Vou ficar com ele lá. Está bem assim? - Ele levantou sem nem ao menos esperar minha resposta.

Enquanto ele subia com Daniel em seu colo, peritos desciam vestidos de branco com maletas quase prateadas. Estavam sérios.
Chamaram o delegado e, quando ele se aproximou deles, cochicharam algo olhando para mim. Ele voltou olhando para o bloco em suas mãos, inexpressivo. Quando se sentou novamente, disse:

- Encontramos evidências que indicam que alguém limpou o local recentemente. O guarda-roupa e o chão estão cobertos por manchas de sangue que ficaram visíveis através de nossos equipamentos. Colhemos amostras de cabelo de Julia de sua escova e vamos fazer exames pra confirmar se o sangue do local é dela. - Fez uma pausa, esperando uma reação minha. - Precisamos que vocês nos acompanhem à delegacia. - Ele olhou mais atentamente para mim. - Senhora Rabello? - Eu olhava para ele, mas não o via. Não piscava. Não sentia. - Consegue me entender?

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